terça-feira, 24 de março de 2009

Diz que faz hoje dois meses...

E se, de repente, nascessem?
A saber que a "vida" estava confinada (qual karma...) a 6 meses?
Como a celebrariam?

São 6, os festejos que vamos ter que cumprir por cá (fora aqueles outros para os quais ainda vamos ser convidados por pessoas extraordinárias que nos acenarão, dizendo saber que em Portugal se fala Castelhano).
Celebramos (vocês também comigo) os 2 meses, meus caros...
Os dois meses mais caros.
No Sábado, dia 24 de Janeiro de 2009, quando se começava a desenhar a 18ª jornada da 3.ª Divisão, Série F, com esse enorme Barreirense-Campinense (ver infra ficha de jogo), eu próprio, João Maia Dias e Tiago Soares aterravam no Dubai, naquele dia que se perfigura como o único em que choviscou até ao momento.
Ficha do jogo:
Estádio: António Almeida Correia (FONI), em Alcochete
Tempo: Tarde de verão
Terreno de jogo: Bem tratado
Árbitro: Tiago Martins (Lisboa)
Árbitros auxiliares: Hugo Proença e Nuno Duque

Enquanto que aquele Barreirense-Campinense se saldou num empate (revelando que a equipa do Barreiro, comandada por Carlos Fernandes ainda não mostra as credenciais que lhe foram atribuidas no início da época e evidenciando necessidade de amadurecimento nos processos de transição defensiva), no Dubai celebrava-se a vitória da chegada.

E como celebração rima com "ponto da situação", tomei a liberdade de vos voltar a prender ao Dubai, nem que seja tropeçando, mais uma vez, no meu blog.

Para além da simpatiquíssima visita da "Grande Reportagem" da SIC, nas pessoas de Miriam Alves e Jorge Pelicano, (responsáveis, respectivamente, pelos excelentes e premiados internacionalmente trabalhos “O Balneário” e "Ainda há pastores?", nada de muito diferente aconteceu por terras do Sheikh Al Maktoum.

Em relação àquela "Grande Reportagem", a rodar previsivelmente em final de Abril, vos adiantarei mais pormenores em breve.

Surpresas a nível de rostos conhecidos, em prime time.
Valerá a pena, no conforto das vossas chaises longues ou canapés, sem ter de ligar o PC...
Há que ser paciente.

Se ainda alguém vê a MTV (para além daquele grande clássico que nos introduziu a muitas das bandas que ainda ouvimos hoje - Alternative Nation) e se lembra das festas de praia com jacuzzis a 20 metros da areia, barbies danceteiras, Moët & Chandon e muito Saint-Germain a sair do Sound System, vai querer dissecar estas fotos.

Suspended Matrasses: Sunbaths & Mojitos from England, France, South Africa, Cape Green, Ciprus and Portugal

João Dias - chill out time

João Dias and Tiago Soares: The gorgeous portuguese men

Nestas festas, meus amigos, só por convite.
E este é o Dubai dos clichés, aquele de que todos falam na Europa.
Aquele Dubai exclusivo. O das 7 estrelas (a caminho das 9).
E para isto, meus caros, é preciso conhecer pessoas importantes.
Nós, não facilitámos.

Por entre dias de trabalho entediantemente iguais, percorrendo a Sheikh Zayed Road até Greens no regresso a casa e o inverso na ida para a labuta, lá fomos espreitando alguns spots obrigatórios.

Com a devida distância, assim como não se pode ir a Florença sem se entrar no Duomo, não se pode sair do Dubai sem contemplar o Burj Al Arab, o Burj Dubai, the Palm, Atlantis Hotel ou a plêiade de Ovos Malls que se instalam tal como no SimCity, com apenas um clic.
Aqui estão dois dos ex-libris:

Burj Al Arab. View from Souk Madinat Jumeirah: the only 7 star hotel in the world

Burj Dubai. The world tallest building

Para além disso, temos entusiasticamente experimentado a água do Golfo que já não chega para nos arrefecer dos pouco primaveris 37 graus (mas afinal, em que Estação do Ano estamos nós?).

Como em todo resto da cidade, o lazer das "castas sociais" espartilha-se por zonas distintas.

Se o centro, em Deira e Bur Dubai é povoado por shoppings semi-desertos à semana (tal como aquele Riaplano ou Oita em Aveiro, o Avenida em Coimbra ou o Dallas e Brasília no Porto, que fervilhavam nos oitentas, mas agora deglutidos e tornados tubos de ensaio para muitas das bandas-locais-prestes-a-explodir), enchem-se ao fim-de-semana de indianos, paquistaneses e filipinos.

Assim como as praias menos fashion onde, vestidos e de dedos entrelaçados em sinal de Amizade, se passeiam indianos-homens (as suas mulheres aguardam na Índia o seu regresso, estimado em 5 anos e vão "levantando" o dinheiro que vai chegando irregularmente, por correio, em mão de meirinho) no único dia de descanso semanal - o Sábado.

No Dubai "novo", na praia dianteira à Jumeirah Beach Residence, aglomeram-se os expatriados (mas quem foi inventar e implemetar tal palavrinha - a lembrar uma qualquer Sibéria estalinista) ocidentais, sendo facilmente perceptível descortinar uma palete linguística e de sotaques que vai do Inglês da Austrália ao dos States, do Português europeu ao Português da América do Sul, Italiano, Polaco, Alemão, Basco e, quiça até, escorregar numa qualquer leitura do Asterix em Mirandês.

Na parte traseira das imponentes torres da JBR, os enormíssimos rococós dos Ovos Malls e as compras de fim-de-semana numa qualquer Ana Sousa ou Sacoor Bros...

A partir deste momento relanço o meu blog.
Torno-o massificado e pisco o olho ao Sheikh.
Por outro lado, corro o risco de ser linxado por parte da crítica.

A lembrar os Stone Roses, na ponte entre o intemporal álbum homónimo e o muito Dubaiano, pindérico e pretencioso Second Coming de 94.
O que vale é que, por aqui, poucos criticam e quase ninguém conhece o Ian Brown.
Por baixo desta máscara estará sempre, vos juro, o menos alienado e responsável John Squire.

A partir de hoje, este blog nunca mais será o mesmo.

If you want to set up a business in Dubai: take off your shoes and dance the blues.

terça-feira, 10 de março de 2009

No Golfo, também sopra a brisa fresca...


Vocês, meus estimados amigos, a razão de ser do meu parco mas esforçado blog e todos aqueles que, amantes do Árabe, planaram até ao título deste moleskine, merecem tudo.

Depreendo também que muitos de vocês se perguntarão como será possível que "aquele gajo que está no Dubai e nós aqui no nosso Portugalzinho", 80 % do que escreve é lamento, pesar, desconforto e introspecção inflaccionada.

Se 50% daqueles 80 (30% são delírios do leitor, genialmente induzidos por mim) são possivelmente verdade, ainda nos restam outros 50%.

Estejam descansados, meus estimados, que isso significa que "aquele gajo que está no Dubai" não denota traços depressivos nem uma tendenciosa e parcial aptência para a Sociologia de Bolso.

É então, dos outros 50 por cento que vos quero falar.

O Dubai tem que ser encarado com sentido de humor.
O que me pareceu trágico, afigura-se-me agora como cómico.

E é verdade que há muita coisa aqui que não acontece em nenhum local do Universo, quanto mais nos brandos costumes de Portugal.

Meus caros, refiro-me ao denominador comum por cá: a Exuberância!
As Peitudas dos Automóveis - Alguém se lembra desta película de 1987 com o título original em Eslovaco Kozy Vozy?

Contam-se pelos dedos de um pé, quantas vezes por dia, em Portugal, se apanha um murro da Exuberância (quanto muito da extravagância...).

A Exuberância exige dinheiro. E Portugal é pobre.
A Exuberância clama por dimensão. E Portugal é pequeno.
A Exuberância brada às dinastias. E Portugal é uma Democracia.

Portugal já foi rico, grande e dinástico.
Mas já não é.
Já não é Exuberante.

Acontece que o meu querido homónimo, de seu apelido Gouveia, durante um cafezinho de portugueses (tem que ser para se chorar em conjunto uma vez por semana!) com a sua mui amável esposa, Dona Carina, trabalha no Dubai Autodrome.

Já em jeito de despedida:
"É pa...tenho aqui algumas credenciais. Vai haver uma corrida das Speedcar Series. Passem por lá...".
"Obrigado João...Dá cumprimentos lá em casa".

Programa de Sábado à tarde (que correspondia ao nosso imaculado Domingo de futebol português - agora joga tudo à noite, em dias de trabalho e não deixam entrar tremoços...), "romeira-se" ao Autódromo, às corridas de cavalo, aos jogos de cricket e ainda, se formos mais fundo, às impressionantes corridas de camelo (sim, estes animais não saltam barreiras mas correm...).
Entrei, a recordar-me das intermináveis sessões de Fórmula 1 do pós-almoço domingueiro no Canal 1.
Ali estavam as meninas peitudas por todos os lados, boxes abertas, em exposição de um lado, Lamborghinis Gallardos, Maseratis ali, Ferraris acolá e, ao fundo, o acesso à pole position, antes da partida.

"Ó Tiago...aquele gajo ali parece-me o Jean Alesi."
"É verdade Sardo. Mas olha que ali só pode ser o Johnny Herbert".
E era.

Sir Johnny Herbert, a Trail of Dead Fan, with the Portuguese Commission

Aqui está grande parte daqueles 50%.

Como daquela vez que vimos no Dubai (Ovo) Mall (o maior do mundo!) Rivaldo a cruzar-se com o estilista português João Rolo, denotando total desconhecimento um pelo outro...

Caríssimos, tudo isto é Exuberante.
Tudo isto é cómico!

Mais oui, c´est Jean Alesi!

quarta-feira, 4 de março de 2009

Sobre algumas considerações sociais e o Casamento.


Já aqui tinha feito, muito na diagonal, uma ou outra referência às castas sociais não institucionalizadas que perspassam na vertical todo este folclore que são os Emirados Árabes Unidos.

Mas, uma acepção mais linear de "folclore" (aquela que habitualmente a populaça apelida também como rancho), pode deixar adivinhar uma noção negativa associada a preconceitos que se prendem com diferentes percepções culturais.
Ou por outro lado, a consideração de que tudo o que é folclore é, ora parolo ora foleiro.
E é injusto que assim seja.

Se espreitarmos o website da Federação do Folclore Português (geralmente confundida com a inexistente Federação Portuguesa de Folclore - pelas óbvias referências futebolísticas) sabemos que o Grupo Folclórico e Etnográfico de Macinhata do Vouga foi assaltado:


"A sede do Grupo Folclórico e Etnográfico de Macinhata do Vouga (Águeda), foi assaltada e o seu espólio material e cultural roubado. O fruto de mais de 20 anos de trabalho desapareceram e o futuro desta colectividade ficou seriamente comprometido, seja pelas perdas insubstituíveis, seja pelo desalento que tomou os dirigentes e os componentes do Etnográfico de Macinhata do Vouga".

Alguém, de bom senso, discordará que se ateste a gravidade do ocorrido no que toca ao (des)respeito para com as raízes ancestrais (agora arrancadas) da Freguesia de Macinhata do Vouga? E aqueloutras para o Concelho de Águeda?
Em continuação:

"Qual a motivação? Qual o interesse económico dos larápios? Qual o destino de tanto património cultural roubado?"

É com esta questão etno-cultural poderosíssima que temos que, inevitavelmante, assumir uma reflexão consciente.



Apesar de me considerar muito pouco burguês, a verdade é que, em muitas áreas da vida, padeço de um certo aburguesamento que se prende com caprichos, selectividade e triagem qualitativa.

Isto porque, se em vez de me falarem de "folclore", me sussurrarem ao ouvido World Music (em Português, Música do Mundo ou as Músicas do Mundo) penso logo em Sines ou no Sons em Trânsito.
E isso sim. Isso é de Salas 2 a horas pouco convidativas, lá para os lados do Oita, na Lourenço Peixinho.

A mesma história, a da música popular e a da música pop.
Não serão elas a mesma e uma só coisa mas dita por pessoas diferentes e em ambientes distintos? Ou pelo menos, concordaremos, não terão, pelo menos, uma base claramente comum?

Com esta verborreia toda, já se esqueceram do GFEMV (Grupo Folclórico e Etnográfico de Macinhata do Vouga)?
Pois eu, não.

Pretendo fazer um pequeno exercício, baseado ainda na minha profunda inexperiência de vida (por isso vos peço a vossa preciosa crítica, compreensão e auxílio para que se complete atempadamente esta tese).

Quero encontrar os larápios, aqui mesmo, nos Emirados.

Deste modo, restituir a dignidade aquela Associação Cultural sem escopo lucrativo que, de forma tão militante, leva a Macinhata aos cinco cantos da emigração portuguesa (porque ainda não há voos comerciais para o ciber-espaço).
Viva a Sociedade Civil!



World Music Vs Folclore / Sines Vs Encontro Nacional de Folclore de Águas Santas


Por admitir ser mais aburguesadito, tendo em acreditar que este ano, à semelhança dos anteriores, o Encontro Nacional de Folclore de Águas Santas vai ser uma parolada.
Seguramente, as Músicas do Mundo em Sines, ou o AnDanças em São Pedro do Sul, mais uma vez respirarão a qualidade que sempre os caracterizou, na prazenteira possibilidade de mergulhar respectivamente, ora no Oceano Atlântico, ora no Rio Vouga.

Assim é por cá, quando os playmobis da construção vindos do Paquistão, Índia ou Filipinas, "despegam" em magotes fazendo jús à tal expressão que todos aprendemos na cresce: "de mãos dadas e em filinha indiana".

Cheiram muito mal, sorriem porque têm que ser simpáticos, escutam e dançam música muito pouco árabe.




Dirão, a maioria dos expatriados ocidentais, que não entendem como estes monhés se comportam daquela forma. E dirigem-se eles depois para Sines, no conforto do seu automóvel patrocinado por uma das três maiores empresas do ramo.



No dia seguinte, são os primeiros a telefonar para os filhos na Europa a referir que, depois de Sines, ainda tiveram tempo para ver uma das maiores companhias de dança do ventre de Oman que, por acaso passou em Abu Dhabi para o aniversário do Sheik e que, "afinal vai começando a aparecer alguma oferta cultural por cá".



Por mim, vou chegando a algumas conclusões, num país em que apenas 34% da população é autóctone (e 10% no Emirado do Dubai), sendo que a grande fatia é proveniente de outras regiões asiáticas e, residualmente, ocidentais que trabalham como técnicos superiores, directores e administradores.

E sim, foram estes ocidentais, a par dos árabes envaidecidos que os gostam de ouvir falar, que introduziram a falsa World Music (a mesma, a da Mariza que canta o "fado" e que povoa as televisões locais) e ridicularizaram o folclore que, ao contrário de nas outras partes do mundo, chega de fora, lá dos lados das Índias e Filipinas.
Quer-se queira, quer se não queira, quem constrói a identidade cultural é quem está. E que está em maioria sulca mais fundo.



E isso é folclore.
E isso é ser popular.

Isto não é rancho.
Portanto, aqui deixo, para memória futura, algumas fotos do melhor momento desta minha estadia.

Tive o privilégio e a honra de aceder ao convite simpático e assistir ao casamento da irmã do "nosso" Sunil (casado com uma chinesa que conheceu em Inglaterra enquanto tirava o seu MBA), administrativo lá no escritório.
Nascido no Dubai, de origem indiana, fruto da angariação árabe de mão-de-obra, iniciada nos sessentas aquando da descoberta efectiva de petróleo, elemento que continua a pagar as exuberâncias que nutrem o ócio dos autóctones.
Nasceu cá mas nunca obteve, nem obterá, a Nacionaliade.

A cerimónia realizou-se no único templo indiano que, numa atitude muito pouco ecuménica e a muito custo, sobrevive num armazém do Bur Dubai, encafuado na indian lane souq, na parte mais antiga (mas pouco) da cidade.

É deste folclore que falo.

E num país de nómadas, sem recursos naturais a não ser o fabrico de petróleo (descoberto há um par ou mais de décadas), com regras de sociabilidade pouco consensuais à luz dos nossos valores ocidentais, não se deve poder admitir uma ditadura de (falta de) gosto(s) e de gritante negligência etnogáfica.

O Sheik manda chamar o indivíduo, a obra faz-se. Ordena descartar e contempla. Preocupa-se, de seguida, por não estar seguro da existência de algo maior em NY ou no Parque das Nações.

Os Árabes milionários mas também aqueloutros apenas ricos, regra geral, são vaidosos, avassaladoramente pindéricos, arrogantes, hipócritas e exploradores.
Compram os serviços aos ocidentais e a mão-de-obra aos asiáticos.
Apenas retêm alguns dos semelhantes em postos administrativos para garantir que ninguém fuja da alçada desta ditadura de caprichos e falsas religiosidades.

O resto do mundo islâmico, particularmente a vizinha Arábia Saudita, que às Sextas continua a encher estádios no espectáculo público da morte assistida, olham bem de esguelha para todo este deboche. Apenas o toleram por motivos dinásticos, por respeito às origens dos Sheiks e das suas famílias nos Emirados e, inevitavelmente, pelas excelentes relações económicas que com eles detêm.

Mas esquecem-se que o Dubai praticamente não existia há cerca de 60 anos, que o petróleo já está a acabar e que os turistas cedo se aperceberão que isto tem muito pouco para oferecer para além dos pacotes turísticos risíveis, entediantes e reeinventados até à exaustão, acrescido do sol(o) abrasivo e insuportável.
Uma seca, portanto.

Ou "eles" se apercebem que a aculturação de mais de metade da população que ajuda a construir no deserto (e asseguro-vos, meus amigos, que construir no deserto não é fácil) é fundamental, ou "eles" deterão eternamente o estatuto de trampolim. Vem, salta mais rico e regressa à origem com a certeza de desperdício existencial.

Mas também é verdade que a Cultura leva tempo a ser edificada. Pode acontecer que este caminho se começe a calcetar agora. Mas nunca virando costas a quem está, mesmo sendo de fora. Isso é irrelevante. Que perigos pode haver? É ainda mais enriquecedor crescer na partilha (veja-se, a título de exemplo, as meninas de Cabo Verde)...

Não há incompatibilidades. Só se as inventa por decreto.

A esta hora estará Michel Giacometti, com o seu precioso legado, fruto das fabulosas recolhas feitas no âmbito do folclore e da etnografia, a dar voltas na tumba, e a pensar como estarão as pessoas da Freguesia de Macinhata do Vouga. Essas mesmas com quem ele falou.
E este senhor, asseguro-vos, não era parolo e sabia umas coisitas. E rancho, era raro comer.

Preferiria viver, concerteza, em Deira, no meio da confusão importada, do que no fabuloso, faustoso e mui algarvio aldeamento de Greens (onde resido actualmente, atestando então, o meu laivo de burguês comodista a caminho da falência).

As culturas não tem escalas de grandeza. Coabitam paralelamente na realidade mas se se casam, vos garanto, nunca mais se divorciarão. Amadurecem.

As culturas não são moralizadas. Por mais que se pense que se consegue, é falácia. Porque elas sobrevivem sempre às pessoas. O mais que pode acontecer é adaptarem-se. E isso só acontece quando se toca, se cheira, se sente, se vê e se ouve. É preciso conhece-las. E o (re)conhecimento é mútuo. Têm de ir ao encontro umas das outras.

Aqui, uma ocupa a redoma aveludada e pesada da preguiça. As outras, descomprometidas, aguardam a partilha de uma refeição com a mesa posta há já muito tempo.

Temo que a comida, já fria, não se conserve por muito mais tempo...

Cá por mim, já sei quem assaltou a Sede, lá na Macinhata.
Descobri os larápios.

Resta-me apenas, aguardar pelas vossas pistas sherlockholmianas.
Mas duvido que mude de opinião.

De qualquer forma, se souberem de mais alguma coisa, aqui fica o contacto que devem accionar:

"Apelamos à solidariedade e ao espírito de classe de toda a família de grupos de folclore e ranchos folclóricos, apelando à atenção de todos para identificar a presença de algumas destas peças, seja em feiras de velharias, seja em estabelecimentos comerciais com artigos da tradição ou, ainda, caso exista algum contacto para oferta de algum deste espólio. Os alertas deverão ser dirigidos ao móvel 93 640 89 27 (José Augusto Marques)."

domingo, 1 de março de 2009

É toda boa, a RU( !

Faz hoje 23 anos.

Ainda não tinha 5 aninhos quando a menina nasceu.
Fui ouvindo-a falar e ouvindo falar dela.
Apaixonei-me aos 18, ainda imberbe.


Lá vai ela pensando que é linda.
Por onde passa tudo cresce...

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

O Ovo é Mall.


Bem sabemos que o Ovo Mole é imagem de marca de uma das cidades mais bonitas do mundo: Aveiro.
Aconteceu, por outro lado, por motivos estratégicos, ter sido esse o meu local de nascimento, enquanto à mesma hora, do mesmo dia, em Londres, na Westminster Abbey, se casava Príncipe Carlos e a malograda Princesa Diana.
Estranho, seria encontrar nas arábias um esgar sequer de doçaria conventual da provincianamente (à la portugaise...) denominada Veneza de Portugal.

Poderia ter, eventualmente, tropeçado num mais global arroz doce, num internacional leite de creme, numa cosmopolita nata do céu, num inter-continental doce da casa, numa trans-atlântica fruta da época ou, se quiser ser mais arrojado, numa luso-italiana fatia de Vienneta, que nunca poderá faltar num qualquer snack-bar português que se preze.

Mas não.
Dei de caras com o meu mui estimado e conterrâneo Ovo Mole (deve pronunciar-se Obo Molle, em Abeirense da Bairrádá).

O processo de expansão do Ovo Mole nestas paragens, tem-me feito tirar algumas notas acerca do volumoso aproveitamento que um produto local/nacional pode ter "fora de portas".
Reúno então, uma série de informações ultra-secretas e oficiosas, para que a vereação do Eng. Élio Maia e a Câmara Municipal de Aveiro possam perceber como as coisas se devem processar.
Chega de Bugas, de passeios de Moliceiro na Ria, de ciclovias, salinas, Universidades urbanisticamente perfeitas, de eco-museus, etc, etc, etc.

Meus caros aveirenses: isso já deu. Démodé. Passado. Esquecer. Caput!

Todas as nossas energias no: Ovo Mole.

E estes senhores, arautos do pioneirismo e da experimentação, não fizeram por menos e apresentam-nos uma gama infindável de variantes deste produto que será, concerteza, um case study, nas áreas da restauração e hotelaria mas também nas escolas de marketing em Portugal.

O Ovo Mole é (para se ter uma pequena ideia da popularidade do fenómeno) também usado na oralidade, como expressão dita e ouvida quotidianamente por qualquer indivíduo moderno que se encontre perdido, desencontrado, em lazer, em trabalho, deprimido, alegre, soturno ou a fazer o pino.

As margens de lucro, que vão largamente compensando o investimento na produção desta pérola aveirense das arábias, são inimagináveis e deixam adivinhar um futuro ainda mais risonho.
Os Ovos Moles são, de facto, irresistíveis e viciantes.
E aqui há dos maiores já alguma vês fabricados: assim mesmo, à escala do Guiness, da Avenida da Boavista ou daquele golo do Madjer.

Não há um dia em que o Sheik não peça um nOvo.
Não há um dia em que um não começa a ser produzido.
Apenas um reparo: o processo de internacionalização do produto tem uma matiz desviante.
Dizem eles que, para facilitar a sua mediatização e porque o Inglês é a Língua franca, se deverá corrigir linguisticamente para: "Ovo Mall" (sim...a mesma história do Allgarve!).
Esta nova evolução para "Ovo Mall" funda-se também, justamente, na semelhança com aquela supra citada pronunciação genuinamente popular: do Abeirense da Bairrádá, Obo Molle.

Ver para crer: o Ovo Mall está em todo o lado e tem já nomes próprios.

"Where is Marina (Ovo) Mall?"
"Oh...look! The biggest (Ovo) Mall in the World!"
"It´s easy... You should cross till The Emirates (Ovo) Mall."

Caros concidadãos aveirenses, posto isto, na próxima Assembleia Municipal, em massa, gritar:

Abra os olhos, Eng. Élio!
Por onde tem andado?
Aveiro precisa disto!!!

P.S.: Citando José Hermano Saraiva em mais um épico final d´Os Horizontes da Memória no Dubai: "... e é uma pena que uma Civilização como esta, a Árabe, que ensinou o mundo a contar, a cultivar o Algarve, a dançar o ventre, a fundar o Farense e alguns clubes de Lisboa, tenha agora, como base cultural o objecto que é, ao mesmo tempo, a melhor das metáforas: é parido rapidamente, por um dos animais menos dotados do mundo e que, pousado e sendo mall, nunca se aguenta em pé."

É o Ovo Mall.
Anymall.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

A Ana Maria e aquela semana

Tinha-lhe dito, ainda no Porto, antes de emigrar, que seria sempre um risco ela partir para solo arenoso assim. Estando eu "lá" apenas há duas semanas.

Os anfitriões dignos dessa designação têm que ser cicerones.
Os cicerones amadores (os que amam o que fazem e todos aqueles que não laboram em agências de turismo) têm que se preparar.
Eu deixei o pré-aviso.

A Ana Maria Barros chega-se-me numa Sexta, com quase 30 anos.
Ainda "vintona" mas nascitura dos 30, quis marcar no Dubai o colapso do "2"e o parto do "3".
E acho que fez muito bem.
E ela também.

A semana de trabalho nos Emirados tem início no Domingo e término na Quinta-feira.
Ainda me custa (como hoje) encaixar a Quinta como o início de fim-de-semana.
E como me concentrar aos Domingos à tarde no trabalho, quando se estava habituado a ver a bola à mesma hora?
Este foi um dos maiores dramas que encontrei.

O Domingo, para mim, foi sempre o Dia Santo e a Quinta-feira, a penúltima estação do calvário com vista à redenção, que é o fim-de-semana.
Adiante.

1- A Ana Maria, como é todaprafrentex, deixou-me mais tranquilo porque o tempo que teria que passar inevitavelmente no trabalho seria preenchido com um largo saco de actividades que ela iria descortinar.


E assim foi.

Por outro lado, ironia das ironias, seria a Ana Maria a recomendar-me o que visitar no Dubai.
Como acertadamente temi, o anfitrião-nada-cicerone, seria literalmente comido pela sabedoria adquirida do convidado.
E bem jeito me deu porque agora sou mais cicerone para receber, por exemplo, o Tiago que virá em Abril.

2- Fada-do-lar

A Ana Maria passa muito bem a ferro, é prendada na cozinha e nas limpezas.
No fundo, uma mulher como já não se vê muitas, que preferem comprar tudo feito.

Em casa de homens pró-mediterrânicos/latinos, aquelas qualidades assumem uma importância elevada ao cubo. São cordões de tradição milenar que, muito dificilmente, abandonarão os homens portugueses até que este planeta desapareça.

As minhas aulas práticas (já que as teóricas ainda estão por doutrinar) de ironing, em Aveiro, com a também milenar minha mãe, mostraram-se muito proveitosas.
Mas as camisas, essas, exigem muita prática e a Ana Maria esteve igual a si própria, mostrando quem é que manda na tábua de engomar.

Foi uma semana pró-militar no que diz respeito à organização dos nossos haveres.
Como bem diz o ex-combatente ao imberbe jovem: "...não te fazia nada mal uma ida à tropa!"
E tem razão.


Uma casa portuguesa (e os dedos do pé direito pedicurado da Ana Maria)

O segundo dos motivos (e talvez o maior) que contribuiu para que esta missão às arábias, por parte da Ana Maria, tenha sido um sucesso, tem dois nomes próprios: Ciríaco e Isabel.Este simpatiquíssimo casal de portugueses introduziu-nos à realidade das logísticas do mundo árabe...

Passo a descrever.

As nossas duas primeiras semanas foram verdadeiramente caóticas no que respeita ao firmamento de um contrato de arrendamento que tem que ser (imagine-se!) pago, de início, pela totalidade do tempo de estadia, nesta caso seis meses. A mesma agência imobiliária que nos apresentou o apartamento "no qual" (plágio a discurso de Cristiano Ronaldo) residimos, mostrou-nos, para terem uma ideia, um outro situado na Marina mas sem contrato: "There is no problem. I think that the tenent is away in UK. He won´ t return before August. So you´ll give me the money and that´s it. Ok?"

Claro pa! Toma lá então o dinheiro para este espectacular apartamento já arrendado!
Se estivermos a dormir e "ele" entrar por aí, bebemos todos umas cervejas e falamos da saída (já tardia) de Scolari do Chelsea...
O Ciríaco disse-nos que isto seria só o início de uma grande aventura comunicativa.
Ter-me-ei que deter em detalhe, num futuro próximo, nesta matéria que dará pano para uma grande manga.

Concordamos imediatamente que ser europeu (não necessariamente ocidental), é algo de insubstituível no que diz respeito a algumas regras estruturais de vivência em sociedade.

Quero terminar, por sublinhar e agradecer publicamente toda a ajuda neste nosso settling, por parte dos amorosos Ciríaco e Isabel (e da "outra Isabel" que me aturou numa das torres da JBR durante a semana e meia que marcou a dura batalha negocial).
E pela companhia da Isabel (sénior) em toda a estadia da Dra. Ana Maria Barros (que sorte hã, ó Maria!).

Em grande parte das nossas interessantíssimas conversas ao jantar no seu belíssimo apartamento da Jumeirah Beach Residence, acabamos sempre por reiterar que o português que está "lá fora" é, sem dúvida, muito mais português que os outros.

Porque, habitualmente, o portuguesito (o uso dos diminutivos atesta o que digo) é pessimista, miserabilista, faz-se valer recorrentemente de exemplos estrangeiros e é de baixa auto-estima (enorme excepção feita à única classe de portugueses novos-ricos: os futebolistas ou futeboleiros, se falarem ainda menos bem a Língua de Camões).

Tem que ser assim, como Deus quer. Ir andando devagarinho. Saudínha é o mais importante...que quando El Rei Dom Sebastião regressar, tudo será resolvido.

Estando distante, física e culturalmente, temos tempo e espaço para comparar:

-reflectir e reprovar os defeitos de Portugal.
-confirmar e elogiar as virtudes de Portugal.
-reflectir e reprovar os defeitos da cultura alheia.
-confirmar e elogiar as virtudes da cultura alheia.

- Temos ainda saudade(s).

Pela comparação, pela distância, pela abstinência do conforto adquirido, tornamo-nos, se quisermos ser honestos, muito mais razoáveis, flexíveis, tolerantes, civilizados e, mais importante que tudo, mais evoluídos.

Por mais que saibamos que os emigrantes tradicionais dos idos sessentas "nas Franças e Suiças"
encarnavam uma série de personagens, regra geral, pouco agradáveis como cartão de visita nacional (mas que grande acto de coragem, ao mesmo tempo, partir sem falar a Língua!), apercebemo-nos cada vez mais que os "novos" emigrantes portugueses já são de outras águas.

O que me deixou com um brilhozinho nos olhos foi perceber que aquele inexcedível casal da geração dos meus pais, se enquadra claramente naquela segunda categoria de emigrantes: lucidez, abertura de espírito, aventura e partilha descomprometida.

Tudo aquilo que é saudavelmente muito pouco português.

Aguardo os meus sessentas desta forma e espero ser capaz de conseguir.

Um grande bem-haja, Ciríaco e Isabel!

Tenho dito.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Desert Sessions


Foi a primeira vez que adquiri um pack turístico.

Para além de ser pouco dado a packs (à excepção dos digipacks que transformam qualquer prateleira) nunca tinha recebido algum ordenado.

Na impossibilidade de cumprir a promessa que fiz a mim próprio com alguns dias de vida (de utilizar o meu primeiro ordenado para me fazer sócio do Futebol Clube do Porto) investi a maquia numa viagem às dunas.
O programa das festividades incluia, inicialmente, um trajecto de cerca de 30km até ao deserto.


Se pensarmos que o Dubai é deserto (assim como todos os Emirados Árabes Unidos e Península Arábica) não temos mais nada que...deserto.

Foi a melhor coisinha que fiz nestas três semanas.

As viagens, e mais que isso, as estadias mais (ou menos) prolongadas num local que não o "nosso", têm que envolver exclusividade.

E o deserto é exclusivo para um português. Não vale a pena estarmos com a sempre tão oportuna balela de dizer aos escandinavos que se passeiam em Lisboa ou no Porto que o Distrito de Beja é "tipo" deserto e que Portugal, apesar de pequenino, dispõe de uma panóplia infindável de microclimas, habitats e paisagens.
Neste caso, não resulta.


Nem para um minhoto Portugal pode ser deserto.
Portugal é tudo menos deserto e o Distrito de Beja, quanto muito, será desértico e seguramente desertificado.
O deserto não é desértico nem desertificado.
É deserto.

É deslumbrante pela austeridade, pela simplicidade, pela imensidão e muito, pela ausência de água.
Deixem-me ali sozinho , a 30km de uma das cidades com mais tecnologia no mundo. Pediria apenas uma esferográfica e um pequeno rádio.
Escreveria madrugadoramente As Minhas Memórias ao som de A Thousand Leaves do Nick Drake.

Eu e a Ana Maria (que fez o grato favor de me acompanhar e que vai ser alvo do próximo post) passeamos de jeep. Passear é o eufemismo que encontro já que o que aconteceu foi um verdadeiro show de roller cost dunar. Seguimos quase à risca o conselho de não ingerir qualquer alimento. E fez todo o sentido.

Para o fim, um banquete (já de noite) com os clichés de quem procura estes packs-oásis: comida condimentada à moda do Médio Oriente (já comi qualquer coisa muito semelhante na Cantina d´os Grelhados), pintura de mãos/pés para a menina, traje árabe para foto hi5, dança do ventre e, cereja em cima do bolo, a viagem de 2 minutos de dromedário. Escusado será dizer que fomos bombardeados com a informação que o animal-cargueiro seria pois, o camelo.

Pelo meio, o nosso cicerone indiano a quem, carinhosamente, apelidamos de Buba (alguém se lembra do hat trick ao Sporting deste já grande clássico do futebol português?) que, com o seu Inglês macarrónico nos ia explicando que todos os dias empackota turistas de todo o mundo e os leva a sair do Dubai.

Dizia-nos ele: "Is he really portuguese, Vashco da Ghama?". Ao mesmo tempo, assegurava-nos saber que Goa foi portuguesa mas que agora é uma promenade de globetrotters e de nostálgicos hippies em busca da juventude perdida.

É o tal problema dos packs: não há muito mais para além do resort.

Mas aqui não há nada a fazer.

Até conhecer a beduína que acampe comigo e me diga, à luz da lua, que quer conhecer Sobral de Monte Agraço.

O deserto é bonito.